
No vasto cenário das discussões sobre saúde mental, uma narrativa persistente tem permeado o senso popular: a alegação de que o uso de maconha causa esquizofrenia.
Na verdade, essa alegação não passa de um mito. Segundo um dos maiores neurocientistas brasileiros referências no estudo sobre a Cannabis e seus efeitos no cérebro, em seu recente livro ‘As Flores do Bem: a ciência e a história da libertação da Maconha’, Sidarta Ribeiro esclarece através de informações científicas e uma construção de pensamento muito clara a respeito desse mito popular. O qual muitas vezes vem sendo perpetuado sem uma análise aprofundada, gerando ainda mais preocupação e dúvidas entre a população. No entanto, é crucial abordar essa questão com base em evidências científicas sólidas, desvendando mitos e oferecendo uma perspectiva equilibrada sobre a relação Cannabis e esquizofrenia.
Nesse post trago para vocês uma passagem do livro a respeito desse tema com o objetivo de desmitificar o elo aparente entre o consumo de maconha e a esquizofrenia, explorando pesquisas recentes e nuances importantes que frequentemente são negligenciadas na disseminação de informações.
Por fim, penso eu que ao compreendermos melhor a complexidade desse tema, podemos promover diálogos mais informados e contribuir para uma visão mais precisa sobre os potenciais efeitos da Cannabis na saúde mental.
Pra começar, é verdade que o uso indevido de maconha entre pessoas com diagnóstico de psicose (42,1%) é maior do que na população em geral (22,5%). Também é verdade que a maconha pode precipitar surtos psicóticos em pessoas com histórico familiar de psicose. Entretando, inferir uma simples relação causal entre consumo de maconha e psicose é difícil, pois o seu uso pode na verdade refletir uma automedicação para mitigar os sintomas da psicose ou os efeitos adversos da própria medicação antipsicótica.
Se a maconha fosse de fato uma fábrica de esquizofrênicos, como afirmam alguns proibicionistas, a proporção de pessoas com psicose na população em geral – abaixo de 1% – deveria ter crescido muito nas últimas décadas, acompanhado o crescimento global do consumo de maconha – e isso não ocorreu.
Além do mais, existe uma grande dificuldade de estabelecer causas e consequências na associação entre o uso de cannabis e psicose pelo fato de que a maconha pode ter efeitos opostos, dependendo da sua composição química. O CBD tem efeito antipsicótico bem estabelecido por três décadas de pesquisa na Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, depois replicadas em outros países como Polônia, Romênia e Reino Unido. Já o THC, em altas doses e na ausência de CBD, pode de fato induzir sintomas psicóticos em certas pessoas. Por essa razão, é importante mapear a origem da vulnerabilidade ao THC. Pessoas com predisposição genética para a esquizofrenia, como aquelas com variantes do gene da enzima catecol-metil-transferase, que metaboliza neurotransmissores, ou certas variantes do receptor CB1, podem ser bastante suscetíveis ao THC e precisam ser protegidas por meios de informações confiáveis sobre esse risco e a presença de THC na maconha.
A esquizofrenia, entretanto, vai muito além da ocorrência de um episódio psicótico transitório, pois o transtorno em que os episódios se sucedem com severidade crescente depende sobretudo da genética familiar do paciente. A maior parte dos adolescentes que fazem uso abusivo de maconha não desenvolvem esquizofrenia, assim como a maior parte das pessoas com esquizofrenia, jamais fez uso de maconha na adolescência.
Poderiam indivíduos geneticamente propensos à esquizofrenia estar se automedicando com maconha?
O maior estudo realizado até hoje sobre a associação genômica ampla para o uso de maconha ao longo da vida, com 184765 participantes, indica que sim. A pesquisa identificou uma influência causal positiva do risco de esquizofrenia no uso de Cannabis. Em outras palavras, em geral não são os usuários de Cannabis que desenvolvem esquizofrenia, mas as pessoas com risco aumentado para esquizofrenia que busca a Cannabis.
Texto retirado do livro ‘As Flores do Bem’ de Sidarta Ribeiro.
Artigos científicos:
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/16199787/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26235479/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29649252/
https://www.unodc.org/unodc/en/data-and-analysis/world-drug-report-2022.html
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22716160/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29241357/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22716148/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/15866551/
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17412710/