Redes Sociais, Emoções e Comportamento: o que os adolescentes e os pais precisam saber


Você sabe qual tipo de conteúdo seu filho consome nas redes sociais?
E você, adolescente, já parou para pensar no real impacto que as redes sociais têm sobre o seu comportamento, suas emoções e até sobre a forma como você enxerga a si mesmo?

Vivemos em um mundo conectado e isso não é novidade. O uso de telas e redes sociais se tornou parte essencial da rotina da maioria das pessoas, principalmente dos adolescentes. Segundo uma pesquisa recente, Tic Kids Online Brasil 2024, 93% da população brasileira entre 9 e 17 anos é usuária de internet e acessam pelo celular, onde a maioria tem a posso do telefone. Boa parte do tempo gasto pelos adolescentes brasileiros na internet, é feito em redes sociais, jogos e aplicativos de mensagens. Quanto ao contato com desconhecidos, os meninos adolescentes, entre 13 a 17 anos, são os que mais conversam com pessoas que nunca viram pessoalmente. A interação acontece, na maior parte, nas redes sociais, jogos e no whatsapp. Ou seja, boa parte do tempo de vida de uma criança brasileira, até o final da adolescência e permanecendo alto durante a vida adulta, é no mundo online.


Mas os dados também mostram algo alarmante: a partir de 3 horas diárias de uso diário de redes sociais, já existe uma associação de risco significativamente maior de sintomas como ansiedade, depressão, isolamento, sentimentos de inferioridade.
Esse alerta vem de um estudo observacional publicado no JAMA Psychiatry, que encontrou uma associação entre o uso prolongado de redes sociais e o aumento de sintomas internalizantes, aqueles que se voltam para dentro, como a tristeza, o retraimento, a insegurança, a autocrítica e a dificuldade de lidar com emoções desconfortáveis e até pensamentos suicidas.


Importante: o estudo mostra uma associação, e não uma causalidade. Isso quer dizer que o uso excessivo das redes sociais não necessariamente causa ansiedade ou depressão, mas que há uma ligação frequente entre ambos os fatores. E os mecanismos que explicam essa ligação são cada vez mais conhecidos pela neurociência.

O que pode explicar esse impacto?

  1. Pior qualidade do sono: O uso de telas à noite prejudica a produção de melatonina, dificultando o início e a profundidade do sono. E o sono, além de essencial para o humor e o bem-estar, é fundamental para o desenvolvimento cerebral, para um bom metabolismo do organismo, para a memória, a regulação emocional e o foco.
  2. Cyberbullying: A exposição a críticas, comparações e comentários ofensivos afeta profundamente a autoestima e está fortemente associada a quadros de ansiedade, depressão, sentimentos de inferioridade e até pensamentos suicidas.
  3. Comparações sociais e distorção da autoimagem: Nas redes, quase tudo é filtrado, editado e idealizado. Isso pode gerar um sentimento constante de não ser suficiente, não estar à altura, não ser bonito o bastante; um gatilho para inseguranças profundas.
  4. Menor contato social real: A falta de interações presenciais reduz a prática de habilidades sociais, empatia, resolução de conflitos e regulação emocional. A interação virtual não substitui a importância do olho no olho e do corpo presente.
  5. “Contágio” emocional e comportamental: O cérebro humano é altamente plástico. Ele “espelha” o que observa. Quando adolescentes consomem ou estão expostos a conteúdos agressivos, sexualizados, fúteis, superficiais ou ansiosos e depressivos, essas representações podem ser absorvidas como normas de comportamento. É como se o cérebro dissesse: “isso é o mundo”, e começa a moldar pensamentos, sentimentos e ações com base nesse conteúdo.

Para os adolescentes: o que você pode fazer
🔹Tenha consciência do que você consome.
Seu cérebro é como uma esponja, especialmente nessa fase. Escolha seguir perfis que te inspirem, te ensinem, te desafiem de forma saudável.
🔹Faça pausas.
Experimente deixar o celular de lado por algumas horas. Vá caminhar, ouvir música, conversar com alguém ou praticar um hobby offline. Seu cérebro precisa de oxigênio, estímulos naturais, tempo sem notificações e experenciar o tédio.
🔹Perceba como você se sente após usar as redes.
Você sai mais leve, criativo e confiante? Ou mais ansioso, irritado, esgotado ou inseguro? Essa reflexão pode te ajudar a regular seu uso.
🔹Não se compare com o que vê nas redes.
A maioria das pessoas só posta os melhores momentos. A vida real é feita de altos e baixos, inclusive a sua e a de quem você admira online.
🔹Cuide do seu sono.
Evite o uso de telas pelo menos 1 hora antes de dormir. A qualidade do seu sono afeta diretamente sua energia, humor, aprendizado e saúde mental.

Para os pais: como apoiar seus filhos nesse cenário
🔹Observe o conteúdo que seus filhos consomem.
Mais importante do que o tempo de tela é o que está sendo visto. Converse sobre os perfis que seguem, os vídeos que assistem, e os temas que mais chamam atenção deles. Mas atenção: faça isso sem julgamento, com genuíno interesse.
🔹Crie momentos offline em família.
Refeições, caminhadas, jogos de tabuleiro, esportes ou pequenas saídas são oportunidades de conexão e presença real, fundamentais para o desenvolvimento emocional dos adolescentes.
🔹Converse sobre emoções.
Ensine seus filhos a reconhecerem o que sentem, dar nomes as emoções e sentimentos, a falarem sobre suas inseguranças e a pedirem ajuda quando necessário. Isso reduz o risco de que eles usem as redes como forma de anestesiar ou escapar de suas emoções.
🔹Seja exemplo.
Adolescentes aprendem muito mais com o que veem do que com o que escutam. Como você pai/mãe lida com o celular? Que tipo de conteúdo você consome? Que imagem transmite sobre o uso da tecnologia em casa?
🔹Ofereça limites com diálogo.
Regras como horário para desligar os aparelhos, evitar o uso à mesa ou antes de dormir são mais eficazes quando construídas em conjunto, com explicações e escuta ativa.

Conclusão
A adolescência é uma fase de formação da identidade, de experimentação e de intensa modulação cerebral e emocional. É exatamente por isso que os estímulos recebidos nessa etapa da vida têm tanto impacto. As redes sociais, embora tenham potencial de entretenimento, aprendizado e conexão, também carregam riscos importantes quando utilizadas sem consciência, filtro ou limites.
Cuidar do que se consome online é cuidar da saúde mental, do comportamento e da formação de quem somos e de quem estamos nos tornando.

Como complemento segue abaixo o áudio explicando um pouco sobre o assunto:

Psicologia com Ciência #1

Referências:

  • Pesquisa Tic Kids Online Brasil online 2024
  • Associations Between Time Spent Using Social Media and Internalizing and Externalizing Problems Among US Youth – JAMA Psychiatry

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