Regulação emocional e saúde física


Muitas vezes, quando somos confrontados com desafios e adversidades da vida, buscamos estratégias que nos tragam alívio imediato, como fugir, ignorar ou até mesmo suprimir nossas emoções. Porém, é importante lembrar que as emoções existem por um motivo, são mensagens valiosas do nosso cérebro/corpo. Ignorá-las pode levar a consequências negativas a longo prazo, comprometendo nossa saúde mental e bem-estar. Entender e enfrentar nossas emoções, além de ser uma oportunidade para o autoconhecimento, é um caminho mais saudável e transformador para lidar com as adversidades e crescer como indivíduos.

Ao longo dos anos, atuando como psicólogo clínico, venho percebendo como que muitas pessoas tem uma certa dificuldade no processamento de suas emoções e na modulação dessas respostas. Ou melhor, possuem estratégias problemáticas de regulação emocional. Não existem seres-humanos que não consigam se regular, mas sim formas problemáticas assim como já citei em outro artigo aqui no blog. Ou seja, embora possam ajudá-lo momentaneamente a lidar com uma emoção desagradável, elas acrescentam outro problema a ser enfrentado. Vale ressaltar que nem tudo que é funcional será saudável, benéfico ou neutro.

Embora as pontuações de QI às vezes estejam em correlação com habilidades cognitivas, o controle e o conhecimento do próprio estado emocional são os fatores mais importantes para o sucesso profissional e pessoal.

Definimos desregulação emocional como a dificuldade ou inabilidade de lidar com as experiências ou processar as emoções. A desregulação pode se manifestar tanto como intensificação excessiva quanto como desativação excessiva das emoções.

A capacidade de regular as emoções é uma característica especificamente humana. Camundongos, polvos, ratos e entre outros animais não têm a capacidade de modular, retardar ou ocultar o que estiverem sentindo, não por conta própria.

A maioria dos animais reage instantaneamente e sem nenhum disfarce a qualquer emoção que os estimule. Os humanos podem moderar, aumentar, fingir ou afastar emoções, mas um gato ou cachorro não fingi que não gosta de uma comida que aprecia, nem evita seus sentimentos se for provocado.

Nos humanos, a regulação da emoção além de trazer benefícios na saúde mental e no bem-estar, também contribuem para a saúde física especialmente no que diz respeito a doenças cardíacas como nos mostra esse paper:

Em um estudo de treze anos de duração feito entre homens idosos, os que apresentaram níveis mais baixos de regulação emocional tiveram 60% mais chance de sofrer um ataque cardíaco do que os mais traquejados em autorregulação. Os cientistas especulam que a regulação emocional diminui a atividade do sistema de resposta ao estresse do corpo.

Quando você está em perigo físico iminente, a resposta ao estresse prepara para o conflito. Ela aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca, contrai os músculos, dilata as pupilas para a pessoa enxergar melhor. Isso é útil se você estiver prestes a enfrentar alguma situação real de perigo, mas quanto mais você tiver dificuldade em processar suas emoções e modular suas respostas, gerando um estresse crônico, mais esse sistema de resposta ao estresse será reativado. E isso tem um custo: a resposta ocorre pela liberação de hormônios do estresse, como por exemplo o cortisol, que têm um efeito inflamatório já vinculado a doenças cardiovasculares e outras enfermidades.

Tendo em vista os benefícios da capacidade de modular as emoções, não surpreende que as pessoas adotem diversos métodos para atingir esse objetivo. Como citado anteriormente, algumas dessas respostas de modulação mesmo sendo funcionais em questões de minutos, elas podem trazer sérias consequências para a pessoa tanto no curto, médio e longo prazo.

Portanto será preciso treinar sua mente para se auto-educar com o intuito de regular as emoções e fazer o manejo de estresse, pois são fatores fundamentais para se preservar a saúde (física e mental) nos dias de hoje frente ao mundo que criamos. E para isso você tem a Mindfulnes (Atenção Plena) para lhe ajudar no processo de olhar para si mesmo a fim de reconhecer as sensações, pensamentos e emoções que está sentindo sem julgamento, favorecendo o autoconhecimento, para, então, a aplicação de técnicas para sua autorregulação como:

  • O escaneamento corporal
  • A atenção sobre a respiração para se fazer a mudança adequada
  • O contato com a natureza
  • Praticar exercícios físicos
  • Técnica do lugar seguro
  • A aceitação consciente que nos convida a aceitar a realidade como ela é e focar no que ainda depende de você. É um processo ativo, consciente e de auto educação. Mesmo que seja desconfortável, aceitar é melhor do que negar, reprimir ou reclamar.
  • Consciência emocional: aprender a ler suas emoções através dos sentimentos, afinal o autoconhecimento é fundamental para aprendermos a lidar melhor com as emoções.
  • Validação: entender porque você sente o que sente para além do óbvio, tente observar qual necessidade não foi atendida.
  • Reflexão/flexibilidade/reavaliação cognitiva: A reavaliação cognitiva é uma estratégia que envolve a ressignificação de seus pensamentos sobre uma determinada situação, a fim de alterar o impacto emocional que ela terá em você. Desafie seus pensamentos negativos automáticos ou distorcidos.
  • Sono de qualidade
  • Escrita terapêutica
  • Rotulagem do afeto: dar nome ao que está sentindo

Referências:

Livro Emocional – A nova neurociência dos afetos

Livro Regulação Emocional em Psicoterapia: Um Guia para o Terapeuta Cognitivo-Comportamental

Appleton, A. A., & Kubzansky, L. D. (2014). Emotion regulation and cardiovascular disease risk. In J. J. Gross (Ed.), Handbook of emotion regulation (pp. 596–612). The Guilford Press.


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