A depressão não tratada, no longo prazo causa a morte de células do cérebro.


De acordo com a OMS, a Depressão é o transtorno que mais gera incapacidade e afastamento do trabalho no mundo, sendo também a maior causa das mortes por suicídio, 800 mil casos por ano (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2017). Outra condição psiquiátrica que tem afetado grande parte da população mundial são os transtornos de ansiedade. Sendo o Brasil líder mundial nos casos, 9,3% dos brasileiros são afetados pelo transtorno de ansiedade (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE, 2017). Muitos dos casos de ansiedade e depressão surgem durante a adolescência, fase em que ocorre remodelação do cérebro. E infelizmente muitas dessas pessoas acometidas por ambas as patologias não tomam as devidas providências por vários motivos.

Mas por que tem aumentado os casos de depressão e ansiedade na população? Não existe uma única resposta para essa pergunta. Ao contrário das doenças, quando nos referimos aos transtornos psicológicos, existem muitos fatores (genéticos e ambientais) que atuam de forma conjunta para gerar os quadros de ansiedade e depressão, por exemplo. Um desses fatores é o estresse crônico, que atinge cerca de 90% da população mundial (ORGANIZAÇÃO PANAMERICANA DA SAÚDE, 2017). Apesar de o estresse ser vital para a sobrevivência das espécies, a exposição contínua a um evento estressor pode levar a problemas fisiológicos e comportamentais. Inclusive ele está na base da inflamação do corpo/cérebro, seja através das altas cargas de trabalho sem as pausas adequadas, falta de rotina de sono e uma má qualidade do mesmo, alimentação com excesso de alimentos hiperpalatáveis e hiperprocessados, poluições, sedentarismo ou pouca frequência de atividade/exercício físico, relacionamentos tóxicos, baixa hidratação, mas também naqueles momentos que além de todas as tarefas que você tem que fazer diária, com as inúmeras demandas e expectativas de todos os lados, ainda aparece os imprevistos e reveses que a vida nos coloca para nos deixar ainda mais estressados.

O que temos hoje é uma sociedade que valoriza a intensidade mas peca na constância. É tudo muito volátil, hipercompensador e com prazer intrínseco. Mas saúde e uma boa remissão dos sintomas se constrói através de ações constantes frente aos fatores de proteção para se ter melhores resultados; sendo uma mudança muito mais sustentável do que comparado com a feita de forma intensa.

E se eu não buscar ajuda para tratar da minha depressão, o que pode acontecer? Muito tempo convivendo com os sintomas da depressão, sem o tratamento adequado, pode gerar a longo prazo, alterações degenerativas no cérebro principalmente devido a inflamação constante que esse cérebro e corpo estarão expostos. Isso fica ainda mais acentuado dependendo das estratégias de regulação emocional que ela utiliza para lidar com os sintomas e moções, bem como seus hábitos diários e estilo de vida.

Por ex: é muito comum que a pessoa com depressão utilize da alimentação, principalmente alimentos ricos em açúcar, gordura e sódio para lidar com os sintomas depressivos e emoções.  Da mesma forma, é extremamente comum ela entrar em estado de ruminação, sentir-se muito ansiosa, angustiada e muitas vezes até se culpando e gerando cada vez mais estresse e inflamação para esse corpo/cérebro. Sono bagunçado e má qualidade.

Sabe-se que o estresse crônico no início da vida pode levar a alterações comportamentais que podem estar envolvidas em muitos transtornos neuropsiquiátricos, incluindo ansiedade e depressão. Várias destas etiologias surgem durante a adolescência, quando ocorre o remodelamento do cérebro. Além disso, o estresse crônico gera desequilíbrios na sinalização dopaminérgica. Uma das principais alterações é a diminuição da atividade dos neurônios dopaminérgicos e alterações na expressão dos receptores dopaminérgicos. Isso resultando muito na falta de motivação, apatia, dificuldade de enxergar recompensas, prazer e satisfação até mesmo naquelas coisas que gostava de fazer; quem dirá para enfrentar uma mudança de hábitos e estilo de vida, o que envolve enfretamento do desconforto.

E além da questão dopaminérgica, a depressão no longo prazo diminui o tamanho do hipocampo, estrutura super envolvida com a memória, inclusive na formação de novas memórias, na consolidação e no resgate dessas memórias. E vale ressaltar aqui, que todo processo de tratamento, visando uma remissão dos sintomas mais aprimorada e investindo em saúde, envolve mudança de comportamento e consequentemente aprendizado. E para conseguir aprender se faz necessário ter uma boa memória. Mas para isso você precisa cuidar do seu corpo e cérebro, ou seja do seu organismo.

Não procrastine cuidar de você. Sua saúde deveria vir em primeiro lugar. E quando me refiro a saúde, quero dizer que é uma coisa só. Não existe saúde física sem saúde mental. Corpo e cérebro fazem parte do mesmo organismo que se comunicam de forma bidirecional.

Referências:

  • The neurobiology of depression: An integrated view. Jason Dean, Matcheri Keshavan.
  • Mechanisms linking childhood trauma exposure and psychopathology: a transdiagnostic model of risk and resilience. Katie A. McLaughlin, Natalie L. Colich, Alexandra M. Rodman & David G. Weissman
  • Why are depressed patients inflamed? A refletion on 20 years of research on depression, glucocorticoid resistance and inflammation.
  • The role of the hippocampus in the pathophysyology of major depression.

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